O CEL É O Limite

Diário de bordo de um jornalista de 34 anos no mar da realidade. Isto pode ser calmo demais, agitado demais, quase sempre verdadeiro demais. Música, filmes, tristezas, alegrias, pessoas e ecos serão presenças constantes por aqui.

Quarta-feira, Julho 21, 2004

Ohana - sob licença de Scream & Yell - Flavia Ballve Boudou

Prólogo 
Desnudo-me no que escrevo. Você não vê meu rosto, não vê meu corpo, mas vê minha alma. Mostro-me muito mais do que em uma pose ginecologicamente Hustler. 
Este texto foi escrito dia 21 de julho, meu aniversário. Não era coluna; eu tenho cá pra mim que deveria apenas brindar-vos com palavras interessantes / coerentes / que façam alguma diferença nas vidas de todo cada um. Só que o Má, o Marcelo Costa – este editor com ares de sério mas que tem 12 anos num corpo de marmanjo – se emociona o tempo todo com o que eu escrevo (a gente é amigo há muuuito tempo, uns 10 anos e várias vidas), e me incentivou a fazer esta loucura de publicar uma coluna assim colcha de retalhos. Lá vai. Reclamações, com ele. Elogios para meu email de sempre. 

Mílogo 
Qual a diferença entre « alguêm gostar de você » e « você ser importante para alguêm » ? 
Parece a mesma coisa, mas não é. Acabei de descobrir isso. 
Hoje é meu aniversário. Meu marido está na Irlanda, fazendo um curso de inglês. Minha familia mora a 10.000 km de mim. Logo, estou sozinha. 
Sozinha? Não. Estou com meu tigre de pelúcia no colo. Chorando com ele, vendo Friends e Almost Famous com ele, comendo brigadeiro com ele. 
Eu achei que eu era importante pra tantas pessoas. Que elas pensariam em me ligar, em me mandar um pensamento, custasse o que custasse. Mas eu senti, hoje, que algumas pessoas ligaram só por obrigação, educação. Gostam de mim, mas será que estariam de verdade do meu lado se pudessem ? Outras pessoas não puderam ligar, mas sei que pensaram em mim o dia todo. Se elas pensarem « 21 de julho », imediatamente pensarão « aniversário da flá ». Pra essas eu assino « fla », em minusculas e indefesa. 
Talvez eu seja só uma romântica, dessas que leu "O Diario de Dani" quando pequena. Eu defendo a tese de que certos livros e canções e filmes deveriam ser proibidos para crianças e mentes frageis. Alguns foderam com a minha vida e já fiz duas temporadas de análise. Muito dos meus problemas de relacionamento vem do fato de eu não me sentir « merecedora » do amor do outro. Vai dizer que não é culpa de « Com açucar com afeto » ? E essa história de achar que amizade de verdade é aquele em que se sacrifica pelo amigo, pacto de sangue, lagrimas e juras ? Culpa de « Coração », que li quando pequena, tenho certeza. 
Colocar sua vida nas mãos de alguêm não é mole. A gente se machuca. Mas este sentimento, de saber pra quem eu sou importante é muito forte, e chorei hoje por saudade de tudo isso – saudade dos aniversários que passava, tão inocente, junto de toda a minha familia ; saudades do meu amor que esta longe hoje ; saudade da época em que eu estava perto de mais gente, e mais gente parecia se importar comigo. 
Tá faltando Ohana no mundo. Ohana? Essa palavra havaiana eu aprendi no desenho da Disney, "Lilo & Stitch". A história, só pra situar os infieis que ainda não foram ver: Lilo é uma garota havaiana que mora com a irmã mais velha, pois os pais morreram num acidente. Só que Lilo, como era de se esperar, tem problemas de adaptação com as amiguinhas, se sente solitária, e sua irmã decide comprar-lhe um cachorro. É ai que entra Stitch, um projeto alienigena muito perigoso, que fugiu do seu planeta e veio parar na Terra, disfarçando-se de cachorro. Entre demonstrações do seu espirito destrutivo e muita música de Elvis, os dois acabam dando uma grande lição de vida. Com a palavra, Stitch : "Ohana significa familia. Familia significa que ninguêm será abandonado nem esquecido.". Acho que é o filme mais importante da minha vida. 
Criança, achava os adultos muito complicados – porque o tio tal não quer estar na festa com o tio outrotal ? Familia é familia e pronto, caramba ! E hoje, adulta, entendi que tudo é bem mais simples. A noção de familia não se define por um sobrenome ou linhagem, mas por um sentimento que é exatamente este Ohana. Da minha Ohana, fazem parte pessoas que não tem a menor ligação de sangue comigo. Reúno sob este grande guarda-chuva todas as pessoas que nunca me esquecerão, que eu nunca abandonarei. Tem gente da minha « familia » Dalcin Ballvé também, claro. Mas tem uma prima aqui, um tio não, dois outros dali, todo um lado que não... E assim vou selecionando. Na minha Ohana, os amigos e familiares « de titulo » viram ao mesmo tempo amigos e familia. Ohana. Muita gente ? Não. « Minha familia é pequena, ela foi partida, mas ela me convêm ». Quando a gente ama, a gente ama e pronto, cacete. A gente « stick together ». A gente se dá as mãos e a gente está lá quando o outro precisar. Não é uma questão de me telefonarem quando for meu aniversário, mas de eu ter confiança e me sentir amada o bastante. Saber que nao vou ser abandonada. 
Desenho da Disney é foda, né. Sempre tem uma licão de moral. Eu adoro, rio pra cacete, mas sempre tem uma lição de moral. É por isso que "Lilo & Stitch" me tocou tanto. Eu sou Lilo, eu sou Stitch. Em que outro filme da Disney uma menina de 6 anos (ou de 9 anos, que sei eu) põe pra tocar uma música toda triste do Elvis e diz pra irmã « deixe-me tranquila para morrer » ? Lilo é agregadora, Stitch é destruidor. Mas Lilo morde as amigas e Stitch se emociona com a história do Patinho feio. Só que nada disso importa, porque eles são da mesma Ohana, junto com a irmã, o assistente social que quer separar as duas e mais uns 2 ou 3 alienigenas de passagem. Nada a ver um com o outro ? Não. Só que eles não vão se abandonar. Ohana. 

Epilogo 
Não exatamente um epilogo, só uma dedicatoria pro meu "doudou", meu marido. Doudou ? Explico: no Brasil, há alguns anos, comecei a chamar meu labrador Spike - graaande figura - de "dudu", porque achava o som do nome muito carinhoso. Aqui na França, descobri que "doudou" - que se fala "dudu" - é aquele paninho que as crianças carregam pra todo canto, tipo o Linus, para se sentir bem, se sentir seguros. E então eu e ele nos chamamos "doudou", e não tem nada mais carinhoso. Porque eu preciso dele e ele me faz sentir bem e eu quero que ele esteja sempre comigo. 

Teoria de Alison - sob licença de Scream & Yell - Miguel F Luna

"Oh, it’s so funny to be seeing you after so long, girl. 
And with the way you look 
I understand that you are not impressed."

Essas são as três primeiras frases de Alison, canção  de Elvis Costelo, clássico absoluto. E é a canção que empresta som, palavras e sentimento para esse texto, ou melhor, teoria. Essas frases já são uma pista mas o que vem a ser a Teoria de Alison? A teoria de Alison é uma equação muito simples:
{É só juntar um cara legal, uma garota bacana, platonismo à vontade, alguns itens da Lei de Murphy, e, às vezes, um relacionamento quase perfeito acontece. Quase perfeito. Aí é só bater no liqüidificador e beber o resto da vida entre silêncios e sonhos}
Alisons são aquelas garotas que marcam a vida da gente e que a gente não consegue esquecer com o tempo, ao contrário, elas nos tomam cada vez mais, como se só existissem elas no mundo. Sei que não existem apenas elas mas isso é inexplicável, acontece. E acontece a ponto de as tornarem as maiores adversárias de novos relacionamentos, embora nem estejam mais ali, talvez apenas como fantasmas, mas nós acabamos sempre as querendo. É diferente de flertes corriqueiros e inconseqüentes e é sacrifício até manter a amizade depois que a história chega ao fim, ou melhor, quase início.
Ela pode ser qualquer garota, como a vizinha, uma colega de classe, a amiga de um conhecido, a irmã de uma amiga, a namorada do melhor amigo, uma prima, qualquer uma. Parece piada mas não é. Acontece. Quem tem uma Alison tem também uma porção de histórias tragicômicas para contar. Eu mesmo tenho um monte e daria para fazer um zine só contando minhas mancadas.
Cada um deve ter a sua Alison. Eu tenho a minha, bonita, inteligente, frases iniciadas por um e finalizada por outro, quase beijos, e  por fim, silêncios. Tá, ela me envia emails vez em quando. Mas já não está sozinha o que a torna mais impossível. Mas é a minha Alison, vou fazer o que? Não escolhi. Ela me apareceu do nada, numa tarde de julho a quase 800 km da  minha casa (acho que fui eu que apareci) e, bem, ela vai se casar em setembro e eu não quero ser muito sentimental (como conta Costelo) mas a vida segue, cada um na sua, e geralmente Alisons nos trazem tristeza. É a sina. Eu só sei que ela não é minha.
Isso é o fim ? Não, como eu disse, a vida segue. Apenas segue mais arrastada. Isso tudo não impede da gente encontrar alguém e se apaixonar e tal. Eu já me apaixonei mas não foi lá grande coisa, nem por culpa da paixão mas por culpa da Alison. Mesmo assim acredito que a minha garota está andando por aí e qualquer dia eu a encontro. Acredito. Mas Alison é  Alison, a gente bebe a vida inteira dessa chuva. E desde então parece que tem chovido sempre. Sempre. 

"Alison, my aim is true. My aim is true."

A Way To Blue - An Introduction To Nick Drake

É importante dizer o seguinte: Nick Drake foi um gênio. Mentor de gente legal como Renato Russo, Belle & Sebastian e Elliott Smith, Drake tem uma obra pouquíssima conhecida. Sua morte prematura, aos 26 anos, vítima de overdose de antidepressivos, só fez aumentar o mito em torno de sua figura tímida e reclusa, mas capaz de proporcionar alguns dos momentos mais belos da música pop neste século. E isso não é um exagero. Vejamos faixa a faixa sua coletânea oficial, lançada em 1994, compilada por seu produtor Joe Boyd e que abrange seus quatro únicos discos.

Cello Song 
Como o próprio nome já diz, aqui temos folk britânico, com intervenções sutis de cello  e a voz de Drake pairando pelo ar. Já coloca o ouvinte no seu devido lugar.  Do seu primeiro disco, "Five Leaves Left".
Hazey Jane I 
Do segundo disco, Bryter Later. Cordas, baixos acústicos  e sonoridade que lembra o Van Morrison de "Astral Weeks".
Way To Blue
Só voz e cordas. Drake pergunta: "Do you know the way to blue?" De "Five Leaves Left".
Things Behind The Sun
Do terceiro e último disco gravado por Drake, "Pink Moon".  Só voz e violão, tensos, Drake quase assombra a música e sentencia:  "The movement of your brain sends you into the rain". Melancolicamente belo.
River Man 
A música mais bela de Drake.  Violão, voz e um quarteto de cordas, capazes de flutuar.  Com versos como: "Betty said she prayed today for the sky to blow away, or maybe stay, she wasn't sure".  De "Five Leaves Left".
 Poor Boy 
Outra faixa de Bryter Later. Aqui Nick assume sua porção autobiográfica  e, sob uma sonoridade quase blues, com backing vocals e sax alto,  faz uma perturbadora profecia:  "Poor boy, so sorry for himself, poor boy, so worried about his health".
Time Of No Reply 
uma das quatro faixas gravadas por Drake antes de morrer.  Colocada na coletânea homônima.  Mesmo clima atormentado de "Pink Moon", apenas voz e violão.
From The Morning 
Mais uma canção de "Pink Moon", com o violão de Drake soando mais forte que três guitarras. 
Nothern Sky
Uma música cujo segundo verso diz "I never saw moons knew the meaning of the sea"  já dilacera qualquer ser humano que tenha sangue nas veias.  Com o auxílio luxuoso de teclados e órgão. Do segundo disco, "Bryter Later".
Which Will 
Outra faixa de "Pink Moon".  Nick vai fazendo perguntas a ele mesmo e nenhuma tem resposta.  Violão e voz valendo mais que uma orquestra.
Hazey Jane II 
Mais uma faixa de "Bryter Later".  Como sua "música-irmã", traz Nick envolto por baixo, bateria e guitarra, lembrando muito Van Morrison.
Time Has Told Me 
Singela canção de "Five Leaves Left", falando sobre amizade  e amor e sua possibilidade de coexistência através do passar do tempo.  "Time has told me, no ask for more, someday our ocean will find it's shore".
Pink Moon
Assombrosamente bela.  Faixa título do terceiro disco de Drake.  Apenas dois minutos, violão, voz e quatro notas de piano, parecendo vir do além.
Black Eyed Dog 
Da coletânea de sobras de estúdio, "Time Of No Reply".  Uma das músicas mais pungentes de Drake.  É o documento vivo de um ser humano atormentado e triste.
Fruit Tree 
Encerrando com uma canção de "Five Leaves Left", é possível perceber  a relação que Drake tinha com a fama e as badalações:  "fame is but a fruit tree, so very unsound, It can never flourish, till it's stalk is in the ground".

Pássaros Onipresentes

É provável que você nunca tenha ouvido uma música sequer dos Byrds e isso é muito ruim. Ruim porque eles foram a banda de rock mais influente da história da música pop, perdendo, na humilde opinião deste que vos escreve, apenas para os Beatles. Exagero? Senão vejamos:
Os Byrds têm sua carreira dividida pelos críticos em dois períodos bem distintos. O primeiro, conhecido como sendo a fase áurea do grupo compreende o tempo entre 1965 e 1968. O segundo período vai de 1969 até 1973 e é visto como a decadência da banda por motivos vários.
A coisa começou mais ou menos assim. Jim McGuinn e Gene Clark se encontraram num buraco qualquer de Los Angeles durante um show do primeiro. Gene achou o set de McGuinn, composto por canções folk tradicionais e algumas covers dos Beatles, surpreendente. Decidiram apresentar-se em dupla, mantendo o repertório original e logo tiveram a adesão de David Crosby. Como toda formação iniciante, sob o nome de Jet Set, gravaram uma demo que não chegou aos ouvidos de ninguém, mas que começaria uma história na maioria das vezes bastante vitoriosa. Pouco tempo depois, eles gravaram um single para a Elektra, sob o nome de Beefeaters, com a ajuda de músicos de estúdio.
Nada acontecia. McGuinn decidiu mudar seu nome para Roger, agregou ao trio o baterista Michael Clarke e o bandolinista Chris Hillman, que deveria assumir o baixo, mesmo não sabendo tocar. Já como Byrds, os cinco resolveram dar um passo audacioso na carreira. Gravar uma música do ídolo maior, Bob Dylan, como se os Beatles (segundo ídolo maior) estivessem tocando. O resto é a tão alada história.
Os Byrds foram catapultados para o sucesso, para as paradas, para o front contra a invasão britânica, e para as badalações. Mr. Tambourine Man, a música de Bob Dylan que os sujeitos rearranjaram estourou nos dois lados do Atlântico, propulsionada pelo timbre inconfundível da guitarra de 12 cordas de Jim McGuinn e pelas harmonias vocais do grupo. Fizeram fãs famosos, inclusive, numa curiosa via de mão dupla, os próprios Beatles, especialmente George Harrison e, glória suprema, Bob Dylan em pessoa. Os Byrds passaram a ser conhecidos como os "Beatles americanos". Logo contratados pela Columbia, lançaram em 1965 o disco Mr Tambourine Man, recheado de composições de Clarke e covers de Dylan e Peter Seeger, num estilo que se chamaria folk-rock a partir do estouro de Turn! Turn! Turn!, disco de 1966, impulsionado pela cover homônima de Seeger. Outra música desse disco que também ficaria marcada, foi Eight Miles High, com seu título meio junkie fez sucesso no circuito alternativo de Los Angeles e San Francisco, mas acabou sendo boicotada pelas rádios devido às alusões às drogas.
A partir daí, os Byrds começariam a lidar com um fator que prejudica qualquer banda. O entra e sai de músicos. Gene Clark, principal compositor e segundo vocalista, deixaria os Byrds por não suportar voar. Todas as turnês traziam a mesma situação: enquanto Clark ia de carro ou trem, a banda ia de avião e chegava muito mais cedo. Como quarteto, os Byrds gravaram Fifht Dimension, disco com um pé pesado na psicodelia nascente, mesclando-a com folk. A faixa-título, John Riley e I See You são clássicos desse período e mostram os vocais a cargo de McGuinn, Crosby e Hillman. O melhor disco da banda, Younger Than Yesterday, de 1967, já mostrava um Crosby mais atuante e sobressaindo-se muito mais que o próprio McGuinn. Em músicas geniais como So You Wanna Be A Rock'n'Roll Star ou My Back Pages (outra cover de Dylan), o trabalho dos Byrds encontra dimensões nunca alcançadas.
Maturidade total, folk rock encharcado de psicodelia e inovações de timbre por parte de McGuinn e Hillman. O disco seguinte, The Notorious Byrds Brothers começou a ser gravado na base da porrada,  literalmente. Crosby batia em McGuinn, que batia em Hillman, que batia em Crosby. Saldo final: Crosby deixaria a banda no meio das gravações para formar o Buffalo Springfield, junto com Neil Young e Stephen Stills. Gene Clark foi reconvocado para finalizar o álbum e não permaneceu, além do pacífico baterista Michael Clarke também pedir o boné. Mesmo assim o disco ainda manteve a qualidade dos trabalhos anteriores. 
De 1968 em diante, muita coisa mudaria na trajetória dos Byrds. McGuinn e Hillman conceberam a idéia de gravar um disco duplo, onde a banda mostraria suas versões para vários estilos de música pop, desde o jazz, passando pelo blues e chegando ao country. Para isso, recrutaram as seguintes pessoas: o baterista Kevin Kelly e o pianista Gram Parsons, que mudaria todos os planos. Parsons, nascido Cecil Ingram Taylor, em 1945, era um ex-estudante da badalada Universidade de Harvard e fã obsessivo de música country. Ele contaminou os outros Byrds e os convenceu a gravar Sweetheart Of The Rodeo em 1968, onde a banda forjou o termo country-rock. Isso dividiu os fãs da banda, apesar do folk rock dos Byrds sempre ter se aproximado das tonalidades mais country, aqui eles assumiam isso de forma definitiva. 
Mas Parsons, sujeito errático por natureza, deixaria os Byrds seis meses após seu ingresso na banda e levaria consigo nada mais nada menos que Chris Hillman, o principal autor das músicas da banda. Juntos eles formariam o Flying Burrito Brothers em 1969, onde Parsons ficaria até 1970, para sair em carreira solo um ano depois e morrer de overdose em 1973. McGuinn se viu completamente perdido e os Byrds, apesar de não encerrarem suas atividades, tornaram-se a banda de apoio de Roger. Com o guitarrista Clarence White agregado ao grupo, eles ainda gravariam The Ballad Of Easy Rider (1969), Byrdmaniax (1969), Untitled (1970) e Farther Along (1972), álbuns renegados na época, mas que agora estão sendo reavaliados e tendo a importância reconhecida, principalmente pela capacidade criativa de McGuinn, um sujeito pacato, mas extremamente competente com uma Rickebacker 12 cordas nas mãos.
Em 1972, com a morte de Clarenc White, os Byrds praticamente deixaram de existir. Em 1973, McGuinn, Hillman, Crosby, Gene Clark e Michael Clarke gravariam o Reunion Album, mas sem uma centelha da criatividade dos primeiros discos.  Seguidores dessa cartilha: Tom Petty, REM, Replacements, Big Star, Eagles, America, Crosby Stills And Nash, centenas de milhares de bandas contemporâneas do calibre de Teenage Funclub e Yo La Tengo, além de outros tantos artistas que passaram a fundir o rock e country. Um legado que impressiona tanto pela importância quanto pela total falta de conhecimento da maioria do público consumidor de rock. Ainda há tempo de correr atrás dos relançamentos dos onze discos principais dos Byrds, entre 1965 e 1972, feitos pela Columbia/Legacy, com faixas extras, sobras de estúdio e lados-B, sem falar no importantíssimo Live At Fillmore February 5 - 1969, concerto inédito da banda, somente agora liberado por McGuinn. Boa viagem.

Fuzzy - Grant Lee Buffalo

Alguns discos mudam comportamentos. Outros geram tendências. Uns poucos mudam o mundo. E, raríssimas vezes, um disco é perfeito. "Fuzzy" tem um pouco dessas qualidades concentradas em suas onze canções. Como um time de jogadores, cada música cumpre sua função e serve de espelho/compensação da anterior ou subseqüente, gerando o que os comentaristas esportivos chamam de "conjunto". É um disco cheio de equilíbrio e beleza. Senão vejamos. 
Grant Lee Phillips era uma guitarrista que amava REM, John Lennon e David Bowie em escalas quase iguais. Dono de uma voz celestial e de uma criatividade exuberante, Grant começou cedo a querer ter uma banda de rock. Encontrou em Paul Kimble e Joey Peters os contrapontos perfeitos para suas ambições artísticas. Sob o clássico formato de baixo, bateria e guitarra, mas contando com esquisitices como o domínio de Kimble sobre o pinao e a chamada pianola (aqueles pianos dos saloons americanos), o já batizado Grant Lee Buffalo despontou para a mídia em 1993. Após um dos primeiros shows, o selo Slash Records, distribuído pela Warner, assinou com a banda e levou-a para o estúdio a fim de gravar sua estréia. 
"Fuzzy" nasceu como uma espécie de declaração de intenções do grupo diante do objetivo implícito por parte de Grant de recriar climas e sons remetentes a uma América mitológica, cheia de peregrinos do Mayflower, lendas do sul do país, cowboys empoeirados, o assassino de Abraham Lincoln, John Booth e até gente como Al Capone. Para isso, o instrumental oscila numa espécie de fio da navalha em que interagem punk, flok, country, psicodelia e o tão chamado “novo”, contido em algum lugar entre os timbres da voz de Phillips e o clima criado. 
"Fuzzy" começa arrasador com "The Shining Hour", levada com pinao anos 30 e permeada por letras surrealíssimas, em que versos etílicos como "it kills me to think that I´m no longer living, just looking for excuses to drink" convivem com loucuras como "I propose a toast to the memory of the horse who carried King Tut and his gold... into the sun". Uma das mais perfeitas baladas do pop vem em seguida, "Jupiter and Teardrops", narrando o amor impossível entre um artista mambembe e uma ex-presidiária. Em certo momento Grant faz um trocadilho perfeito com o nome Teardrop e uma das mais lindas canções dos anos 50, "Lonely Teardrops", do Elvis negro Jackie Wilson, que toca no rádio enquanto a ação se desenrola.
As alegrias prosseguem em "Stars’n’Stripes" na qual o cenário desolado de um ferro velho serve de metáfora para uma grande cidade e principalmente em "Dixie Drugstore", que fala do amor entre um casal de fantasmas em Nova Orleans em meio a vocais que murmuram "jambalaya" (uma saudação típica do Sul), cantados pelo próprio Grant com falsete de fazer inveja aos grandes mestres da soul music. 
"Fuzzy" levou o Grant Lee Buffalo ao sucesso, mais na Europa que nos Estados Unidos, mas a banda nunca repetiria o arraso de sua estréia em seus três discos seguintes, "Mighty Joe Moon" (1994), "Copperopolis" (1996) e "Jubilee" (1999). Neste mesmo ano Grant deixou-a após uma turnê na Austrália em decorrência de problemas contratuais com a Warner e embarcou em uma belíssima carreira solo, que já conta com o maravilhoso "Ladie’s Love Oracle", lançado em 2000 pelo minúsculo selo Magnetic Fields. Em fevereiro de 2002 foi lançado (lá fora, claro), "Storm Hymnal - Germs From The Vault of" - Grant Lee Buffalo", coletânea dupla que tem seu maior atrativo no cd 2, contando com vários b-sides e raridades, incluindo uma versão acústica de "The Shining Hour". 
"Fuzzy" foi inexplicavelmente lançado no Brasil em 2000 pela Warner (com sete anos de atraso). Numa década que teve medalhões como "Nevermind", "Bloodsugarsexmagic", "Automatic For The People", entre outros discos mais emblemáticos, "Fuzzy" passou por uma elegante discrição que acabou fazendo com que adjetivos como perfeito, belo, consistente e pungente só tenham sentido se forem usados em conjunto para definir a sua real dimensão. 

Roberto Carlos – Em Ritmo de Aventura – 1967

Pois bem, amigos leitores. É o Rei Roberto Carlos mesmo. Ele tem uma folha de ótimos serviços prestados ao rock nacional quando este termo ainda não existia em nenhuma de suas conotações ou denotações atuais. Era o homem fazendo história com as próprias mãos. 
Ao longo dos anos 60 o Rei gravou um punhado de discos que podem ser considerados como um verdadeiro cânone do rock nativo em toda a sua extensão. Baladas, covers, composições próprias, uma parceria infalível (nos moldes de Lennon e McCartney, com o Tremendão Erasmo Carlos) e muito talento.
Roberto Carlos Braga nasceu em outono de 1941, no dia 19 de abril, em Cachoeiro do Itapemirim, pequena cidade no interior do Espírito Santo. Era o quarto filho do Sr. Robertino Braga e Dona Laura Moreira Braga. Ele foi fisgado primeiramente pelo country de artistas nacionais como Bob Nelson, mas não tardaria a comprar o compacto de "Rock Around The Clock" e se fascinar com aquele ritmo novo chamado rock 'n' roll.
Aos dezesseis anos mudou-se para o Rio onde foi morar no bairro da Tijuca, lá encontrando outros jovens fascinados por rock, como Erasmo, Tim Maia, entre outros. Foi no The Snakes que ele começou a cantar, apresentando-se em clubes e bailes. 
Se o Scream & Yell existisse nesta época, falaria de rock inglês e Jovem Guarda, deixando de lado a empáfia tropicalista e o elitismo dos seguidores da Bossa Nova. Se você gostasse de música no Brasil dos anos 60, não poderia fugir destes três ritmos. A Bossa Nova era americana demais, influenciada por jazz mais do que qualquer outro ritmo, apesar de talentos inegáveis; o Tropicalismo só surgiria a partir de 1967/68 e era político demais, autoreferente demais e elitista por natureza. Portanto, se o jovem fã de rock tivesse que escolher um estilo de vida, este seria pontuado pelos carrões, motocas e cocotas da Jovem Guarda. 
A ditadura militar implicou com o movimento pois a tal jovem guarda, aqui uma referência a uma "guarda" substituta das "velhas guardas", tão presentes no Brasil, poderia ser uma referência ao comunismo, pois Lênin batizara seus soldados revolucionários em 1917 com o mesmo nome. Tudo besteira. A Jovem Guarda era diversão pura. E Roberto era o chefe da patota.
O grupo de artistas que ainda contava com bandas como Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Golden Boys, Os Vips e divas como Martinha, Wanderléa e Rosemary estrelou por um bom tempo um programa homônimo na Rede Record, onde eles se apresentavam e afirmavam suas gírias e maneirismos.
No ano de 1967, o movimento vivia seu auge. E veio a idéia de fazer um filme, com a galera, na onda de "Help" (dos Beatles, feito dois anos antes) e das aventuras de James Bond. Roberto e Erasmo estrelaram "Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura", que foi um grande sucesso de bilheteria. O desempenho do cantor e compositor no papel principal, teve carisma e senso de humor. A grande atração, como seria de se esperar, é a trilha sonora, que inclui grandes marcos do repertório do filho mais ilustre de Cachoeiro do Itapemirim (ES), como "Eu Sou Terrível", "Como É Grande O Meu Amor Por Você", "Por Isso Corro Demais", "De Que Vale Tudo Isso", "Quando", "E Por Isso Estou Aqui" (que alguns pensam ter como título "Olha") e "Você Não Serve Pra Mim". 
O curioso é que apenas "Eu Sou Terrível" foi escrita por Roberto e Erasmo, que na época viveram uma rara fase de desentendimento, levando o Rei a assinar sozinho cinco músicas. Estas músicas, hoje tão vilipendiadas, são verdadeiros tesouros. Nunca o homem foi tão vulnerável dentro de sua aparente superioridade adolescente. As letras de "Eu Sou Terrível", cheia de bravatas e de "Por Isso Corro Demais" entram em choque direto, mostrando que os caras eram sensíveis e divertidos. E o romantismo sincero do Rei mostrava aqui com "Como É Grande O Meu Amor Por Você" o que viria a acontecer na década seguinte. Mas aqui a embalagem era rock muito bem feito e em sintonia com o que era cometido lá fora por bandas como Monkees, Herman’s Hermits e Hollies.
Muitos de nós estamos aqui graças a namoros iniciados à luz destas canções. Em respeito e conhecimento, ouçâmo-las pois e vamos tentar não mexer os esqueletos.

Terça-feira, Julho 20, 2004

Os Outros E A Minha Vida...

Houve um tempo em que um dos meus sonhos mais acalentados era receber uma fita cassete gravada de uma ex-namorada que tivesse me feito sofrer bastante. E nesta fita deveriam estar algumas canções importantes dos tempos idos, alguns pedidos de perdão implícitos, sendo que a primeira música do lado A deveria ser “ Os Outros”, do Kid Abelha. Sim é isso mesmo. Por quê? Porque “ Os Outros” é, sem dúvida nenhuma, um dos mais intensos e fiéis retratos de uma relação de namoro que já foram feitos na língua portuguesa em muito tempo. Exagero? Pode ser, mas vamos entender os fatos. O ano era 1985. Segundo ano do segundo grau. Colégio Santo Agostinho. Para o Kid Abelha era o ano do segundo disco de sua carreira. Educação Sentimental, o tal disco, foi lançado com a responsa de suceder o debút multivendedor de Seu Espião, que teve todas as suas músicas tocadas nas rádios da época. Quase um trabalho conceitual sobre relações amorosas dos jovens dos anos 80, o disco tinha músicas perfeitas sobre assuntos muitos pertinentes. Como se fosse um pretenso manual de ensinamentos amorosos. Educação Sentimental tinha na figura do baixista Leoni a sua peça chave. Leoni era o compositor do Kid Abelha e tinha um dom fora do comum para assumir a figura feminina que era o centro da banda. Como Paula Toller, na época com cabelo joãozinho e castanho, não sabia nem cantar direito, Leoni precisava adaptar suas letras para que ela cantasse com máximo de verossimilhança. E ele conseguiu neste disco pelo menos três perolas pop, que se fossem feitas por algum grupo pós-punk ou new wave gringo seriam hoje clássicos absolutos : “ Os Outros”, “ A Fórmula do Amor” e “ Garotos”. Em “ A Fórmula...” Leoni, em parceria com Léo Jaime, discutia se algumas artimanhas masculinas, como dançar bem, ter um bom papo ou gestos exatos serviam alguma coisa na hora de conquistar uma menina. Versos como “eu tenho o gesto exato, sei como devo andar, um certo ar cruel, de quem sabe o que quer tenho tudo preparado pra te conquistar” retratavam os playboizinhos de então, com suas camisas Rock 85 da Company. Em “Garotos”, uma menina faz um inventário de suas experiências amorosas listando todos os defeitos que os jovens homens tinham na hora de assumir uma relação. “Garotos fazem tudo igual e quase nunca chegam ao fim, talvez você seja melhor que os outros, talvez quem sabe , goste de mim” era o que Paula Toller cantava com ar blasé numa melodia singela. Como quem realmente desesperançoso de algum futuro. Mas é em “ Os Outros” que o bicho pega mesmo. Aqui uma menina faz declaração de amor cortante para o ex-namorado, despindo-se de qualquer orgulho fútil (talvez o grande inimigo do amor, mas isso já é outro papo), colocando o coração na garganta. Poucas vezes ouvi em algum idioma algo tão singelo, sincero e verdadeiro. Paula empresta o tom de sofrimento e melancolia meio alegre, como quem tentasse eclipsar o sol com um grão de areia, chegando a admitir a derrota como em “ ninguém pode acreditar na gente separado, eu tenho mil amigos mas você foi meu melhor namorado” ou então “procuro evitar comparações entre flores e declarações, eu tento esquecer (...) a minha vida continua mas é certo que eu seria sempre sua (...) depois de você, os outros são os outros e só”. A música era tão autenticamente feminina que era estranho um homem cantá-la, mas quase dava pra pegar a tristeza no ar. O Kid Abelha seguiu, sem Leoni, que formou os Heróis da Resistência e depois lançou um belo disco solo ignorado totalmente pelo público. Hoje um trio, o Kid é o tipo de banda que não se pode levar a sério se o seu caso é ouvir algo relevante, mas há dezesseis anos a coisa era diferente. E quanto aos sonhos, a tal fita cassete nunca veio, mas o meu sonho desde sempre acabou vindo triunfalmente no ano passado, quando me casei com uma menina linda chamada Renata.

Hype Pode Ser Isso...

Hype é tudo aquilo cercado de um barulho excessivo. Geralmente o coro começa com a frase "você tem que". Você tem que escutar, você tem que ler, você tem que ver. É um embuste vendido por revistas especializadas, que precisam criar a maravilha da hora pra justificar a existência delas, ou por grupinhos que acreditam estar num patamar elevado. É o atestado da individualidade classe A de hoje em dia. Você precisa ser malhado, freqüentar certos lugares e gostar das coisas que dignificam. São as bandas inglesas do momento que chegam às toneladas empurradas pelas NMEs da vida, que a gente aceita de bom grado e sem digerir, é o filme que é a grande sensação mesmo sem ninguém ter visto ainda, é a semana de moda que reúne gente fantasiada interpretando personagens, é o DJ que ninguém viu mais gordo mas todo mundo sai papagaiando que é o melhor do mundo.
É uma boa definição.

O Retorno de Leonardo Salomão

Aqui está um testemunho - testimonial na linguagem do Orkut - para meu amigo Léo Salomão.
Achei pertinente colocar aqui...
Leonardo Nascimento Salomão foi a última pessoa a quem chamei de "melhor amigo". Depois dele nunca mais ninguém teve essa importância na minha vida. Cara inteligente, dócil, dono de um bom gosto musical muito apurado, a quem tive a honra de apresentar a soul music e, desde então, ele ficou como o jovem Stevie Wonder de sua foto aí do lado. Por pura incapacidade minha, não mantive contato com ele e sua família maravilhosa, e, todas as coisas boas que a nossa amizade nos trazia ficaram meio pra trás. É um erro que espero ter chance de reparar pois esse cara ainda vai ser padrinho da minha filha, quando finalmente eu puder tê-la. Seremos compadres, parceiros de sueca, de crítica musical e irmãos de novo. Como nunca deveríamos ter deixado de ter sido. Salve, Cavaleiro de Jorge!

Coming Of Ages - original de 2001

Ontem eu fui ao cinema. Despretensiosamente, sem qualquer obrigação de sair da sala de projeção com um novo sentido para a minha vida. "Cinema é a maior diversão", lembram? Apenas isso. 
Fui ver "Lembranças De Um Verão", do diretor australiano Scott Hicks (o mesmo de "Shine" e "Neve Sobre Os Cedros"), com Anthony Hopkins no papel de um sujeito paranormal, que chega a uma cidade do Maine para morar na casa de Bobby Garfield. Bobby é um menino de onze anos, meio infeliz com a morte do pai e o desprezo da mãe (Hope Davis, de "Próxima Parada: Wonderland"). Não vou falar muito da história, inspirada num conto de Stephen King, mas ela é mais uma menção ao que chamamos de "rito de passagem". 
Em inglês fica mais bonito, "coming of ages". É aquela coisa: você cresce. Simples assim. O que você era quando criança não poder ser como adulto. E pronto. 
Tenho um fraco por músicas e filmes que despertam em mim a sensação de revisitar os meus "coming of ages" do passado. Podemos também dizer que essas  situações estão presentes no inconsciente coletivo, pois todos os seres humanos já viveram outras épocas em suas vidas e, invariavelmente, as acham melhores que as épocas atuais. 
Exemplo? Como explicar a excelência de uma música como "Detalhes"? Como justificar o motivo para ela estar presente na cabeça de umas três gerações de brasileiros, sendo composta em 1971? Eu tinha um ano de idade. Por que nos identificamos de cara com a narrativa da canção? Por que todos nós vivemos situações quase ou praticamente iguais à da música e todos torcemos que a mulher que nos trocou por outro homem pene pelos tempos, assombrada pelas lembranças que despertamos nela. Eu mesmo desejo isso a alguém. As mulheres, por sua vez, lembram de pessoas que fizeram parte de suas vidas e que foram chutadas pra escanteio. Viveram o que se passou na música. Roberto e Erasmo são então gênios, paranormais ou algo assim? Não, fizeram uma música sobre um rito de passagem, sobre a desilusão amorosa, igual em seu poder transformador para todos nós. 
Outro exemplo? Cinema Paradiso. Como explicar a identificação imediata com a história do menino Salvatore Di Vita, que volta para a sua cidade natal na longínqua Sicília, para o enterro do amigo Alfredo, projecionista do antigo cinema da pequena comunidade? Imediatamente nos damos conta de que (assim como o personagem) o tempo passou, tudo mudou, nada ficou, a não ser na memória de quem viveu. Quem não lembra de ir ao cinema com a família, os amigos, ver filmes dos Trapalhões ou a primeira trilogia de Guerra Nas Estrelas, ou ainda Indiana Jones? Quem faz isso hoje em dia, a não ser como uma forma inconsciente de rever um tempo passado? Rever um filme em vídeo tem 50% de nostalgia e 50% de saudade. Do filme? Não. De tudo que ele representa. Do tipo: "quando este filme passou no Cinema Rian eu tinha onze anos. Meu avô me levou..." e por aí vai. Em fração de segundos vem a realidade cruel e me pega, avisando que meu avô e o Cinema Rian não existem mais e me trazendo de volta aos meus 34 anos de idade
Como que dando um castigo na criança que chora demais. Talvez isso explique porque tantas bandas fazem sons inspirados no passado. Não apenas pela parte técnica, de imitar acordes, sonoridades, solos, mas de tocar e lembrar de seus heróis da infância e juventude. Tentar trazê-los permanentemente para o seu mundo, numa espécie de "lapso temporal", onde não existe tempo. Ouvir Teenage Fanclub, por exemplo, é ouvir Byrds, Beatles, Big Star. Ao ouvir estas bandas, lembramos que tínhamos poucos anos ou ainda nem estávamos aqui quando elas fizeram sucesso. Mas, por que então gostar delas? Porque elas nos lembram de tempos felizes, mesmo que eles nunca tenham existido e, um poeta já disse isso uma vez, há 16 anos: "o que fazer com essa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi?". 
Coming of ages, amigos, coming of ages.

Melodias Perdidas

Eu sou um defensor da melodia. Quase sempre procuro ouvir coisas que tenham um mínimo respeito para com ela. Claro que alguns momentos da vida pedem por esporro, distorção e gritaria, mas, muitas vezes, tudo o que queremos expressar, sentir e dizer pode ser feito com uma boa e velha melodia.
Brian Wilson, Paul McCartney, Chris Bell, representando respectivamente, Beach Boys, Beatles e Big Star, além de Neil Young, foram grandes artesãos da melodia. A capacidade que tinham de encadear as notas e acordes em algo assoviável e belo era impressionante. Não eram repetitivos, chatos ou sem originalidade. Eram/são mestres absolutos do respeito à melodia. A história, no entanto, foi extremamente injusta com duas bandas surgidas na virada da década de 60/70 que fizeram de suas carreiras adoráveis cenas de gato e rato atrás da melodia perfeita. America e Bread.
Eram tempos em que todos tinham que primar pela atitude. Protestos raciais, guerra do Vietnã, Primavera de Praga, As Comunas De Paris, ou seja, o mundo em ebulição da época não comportava gente cantante somente. A música, o cabelo, a postura tinham que protestar ou assumir sua caretice. America e Bread eram bandas que apenas queriam tocar e compor belas músicas. O America formou-se em Londres, em 1970. Eram três filhos de militares americanos lotados em bases na Velha Ilha. Dan Peek, Gerry Beckley e Dewey Bunnell começaram tocando em bares folk na noite londrina e assim ficaram até 1972, quando tentaram o primeiro contrato com uma gravadora grande, no caso a Warner. É bom lembrar que naqueles tempos, não havia essa coisa de fazer cd-demo, fita-demo. Os contratos surgiam após executivos olheiros presenciarem os shows dos artistas a serem contratados. Nos camarins a coisa acontecia. Ou seja, o artista/banda tinha que ser competente e ter tarimba no palco, senão, já era.
O America simplesmente tocou as músicas que havia composto para o primeiro disco no escritório da Warner em Londres. Entre essas músicas estava "A Horse With No Name", talvez um dos maiores sucessos de todos os tempos em matéria de "música pra tocar no rádio".  Os Warners toparam na hora e a banda lançou seu disco epônimo no mesmo ano e arrombaram as paradas do mundo inteiro.  Dois álbuns depois e eles já contavam com a produção de ninguém menos que George Martin, o quinto beatle. Martin imprimiu sua habitual competência no trabalho da banda e pilotou o estúdio de Abbey Road em outros cinco discos do grupo ao longo dos anos 70. A crítica da época achava o America uma xerox pálida do Crosby, Stills & Nash. Exagero. O America era calcado na mesma bíblia folk/country/rock, mas talvez tivesse menos pompa que o mais famoso trio do gênero. E por isso, suas músicas se davam ao luxo de apenas soar melodiosas e como fundo para namoros hippies e beijos nas saídas de bailes de formatura high school nos anos 70. "Ventura Highway", "Tin Man", "Sister Golden Hair", "Amber Cascades", todas são composições de puro pop/rock perfeito, com estrofe, refrão, solo, repete refrão e final feliz.
O Bread se formou dois anos antes, em 1968, em Los Angeles, a partir do encontro entre David Gates e James Griffin. Acrescidos da presença de Robb Royer, o grupo começou a tocar nos bares locais, e, assim como o America, foi contratado pela Warner/Elektra. O baterista Mike Botts se juntou a eles e, logo no primeiro single, "Make It To You", o Top Ten já havia sido alcançado. Gates e Griffin iriam inflar egos até a banda acabar em 1973, mas, no meio do caminho, eles deixariam verdadeiras pérolas como “If”, "Everything I Own", "Baby, I’m A Want You" e as maravilhosas "Guitar Man" e "Aubrey", esta última, talvez uma das mais belas baladas com nome de mulher já escritas no rock.
A maior vantagem em conhecer as carreira dessas bandas está na facilidade de achar coletâneas (disponíveis no mercado nacional) de greatest hits que cobrem todos os sucessos e dão idéia do que elas eram capazes de fazer. Talvez America e Bread tenham sido os primeiros artistas alt-country do mundo. Talvez tenham sido muito bons e o tempo e os acontecimentos sejam os grandes responsáveis por sua condição de semi-anonimato ou de carregarem o incômodo rótulo de "música de velho". Enquanto o mundo aumentava os decibéis ao som de Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, essas bandas iam na contramão da história, apenas em busca da melodia pura, perfeita e simples. E, quem chegar a ouví-los, perceberá que eles quase sempre acertaram bem perto do alvo.

O Clube da Esquina

A música brasileira era diferente até os anos 60. Era uma maçaroca de marchinhas, sambas-canção, boleros mexicanos e moonlight serenades, estas copiadas dos Estados Unidos. Os chamados "anos dourados" eram pobres em termos de cultura musical. Foi na década de 60 que isso mudou. Três vertentes surgiram quase simultaneamente na música feita no Brasil e isso a rebatizou de MPB. A Bossa Nova agregou a galerinha classe média, fã de jazz e samba. A Jovem Guarda veio com a beatlemania e levou consigo a povo da classe média baixa, com versões de sucessos de bandas inglesas e americanas. Uns dois anos depois veio a Tropicália, que fez a delicia dos universitários antenados com os protestos contra a ditadura militar. Era a trilha sonora genuinamente brasileira, cheia de "atitude" e "nacionalismo verdadeiro" para combater a "colonização do país".
Qualquer verbete sobre música brasileira há de citar estas três ramificações como sendo a cara da música brasileira na década de 60. E quem o escrever não estará errado, mas correrá o risco de omitir uma outra vertente, menor, mas com força e criatividade igualmente relevantes e que agregou um pouco do que as três grandes forças tinham de melhor. O jazz da Bossa Nova, a paixão pelos Beatles da Jovem Guarda e as referências culturais brasileiras da Tropicália. Isso se chamou de Clube da Esquina. O mais engraçado disso tudo é que o "clube" nada mais era do que um lugar numa esquina de Belo Horizonte, onde algumas pessoas se reuniam pra tocar violão, beber pinga e falar de política. Pouco, se compararmos com os programas de televisão que as vertentes, digamos oficiais, da música brasileira, dispunham.
Tudo começou em 1963, em Belo Horizonte. O cantor, compositor e instrumentista Milton Nascimento tinha acabado de chegar de Três Pontas com o pianista Wagner Tiso, e foi morar numa pensão no Edifício Levy, na cinzenta Avenida Amazonas, no centro da cidade. Lá, em outro apartamento, viviam os irmãos Borges – doze ao todo. No começo, Milton se enturmou com mais velho deles, Marilton, com quem foi tocar no grupo Evolussamba. Logo, estaria fazendo amizade também com Márcio e com o pequeno Lô, de apenas dez anos de idade.
Os encontros entre Milton e os dois irmãos eram sempre no quarto dos Borges, em noites regadas a batida de limão. Márcio tornou-se o letrista das primeiras composições de Milton em 1964. Enquanto isso, Lô estudava harmonia com o guitarrista Toninho Horta e devorava discos dos Beatles com outro menino, Beto Guedes. Juntos os dois, que haviam se conhecido por causa de um patinete, montaram a banda The Beavers, inspirada no Fab Four. Milton Nascimento passou a década de 60 participando de festivais e chamando atenção para sua voz e sua verve de compositor. Era o começo do estrelato para ele, que logo foi apresentado aos americanos com o disco Courage (1968), gravado por lá com arranjos de Eumir Deodato. Enquanto isso, a turma de músicos mineiros reunida por Milton e os Borges não parava de crescer, com a chegada de Flávio Venturini, Vermelho e Tavinho Moura.
Faltava apenas batizar essa reunião de músicos. Um dia, na esquina da Rua Divinópolis com a Rua Paraisópolis, no bucólico bairro de Santa Teresa, Milton e os irmãos Borges fundaram o Clube da Esquina, irmandade unida no interesse por música, política, amizade e uma cachacinha das boas. O nome foi idéia de Márcio que, sempre ao ouvir a mãe, Dona Maria, perguntar por onde andavam os meninos Borges, dizia: "Claro que lá na esquina, cantando e tocando violão".
Em comum entre os integrantes, a origem de classe média, o grande interesse por assuntos culturais e políticos e a disposição de privilegiar os temas sociais em detrimento do amor nas letras. Antes mesmo que se formalizasse um movimento (que, de acordo com seus integrantes, nunca se formalizou), Milton e Lô Borges (então com 17 anos de idade) entraram em 1972 nos estúdios da EMI para gravar o disco Clube da Esquina. Com uma capa que trazia apenas a foto de dois meninos, um preto e uma branco, na beira de uma estrada em Nova Friburgo, o LP apresentou ao país a alquimia sonora obtida por aquele grupo de mineiros, ao qual se agregaram ainda o letrista Ronaldo Bastos e o grupo Som Imaginário (de Wagner Tiso): bossa nova, Beatles, toadas, congadas, choro, jazz, folias de reis e rock progressivo.
Canções como O Trem Azul (de Lô e Ronaldo, regravada por Tom Jobim em seu último disco, Antônio Brasileiro), Tudo o que Você Poderia Ser (Lô e Márcio), Nada Será Como Antes e Cais (ambas de Milton e Ronaldo) foram o marco zero para aquele que foi o primeiro movimento musical brasileiro de importância depois da Tropicália. Talvez a melhor música de todo o disco seja a singela versão instrumental de Clube da Esquina nº 2, que teve a letra censurada.
Logo, cada um dos sócios do Clube estaria seguindo o seu caminho, lançando seus próprios discos – Beto Guedes rachou um LP com Novelli, Danilo Caymmi e Toninho Horta e em seguida fez A Página do Relâmpago Elétrico e Amor de Índio. Lô Borges gravou os elogiados Lô Borges e Via Láctea. Flávio Venturini foi para O Terço, banda que lançou discos mais voltados para o rock progressivo e depois daria origem ao pop 14 Bis (de Vermelho e Magrão).
Claro que Milton Nascimento e seus amigos de Clube hoje são passado. Mas ninguém se importa em olhar pra trás de vez em quando. Afinal, na música talvez a história não se repita sempre como farsa

R.I.P. - Rock’n’Roll

Um dos maiores sintomas que um ser humano pode apresentar em termos de desilusão com o rock é passar a acreditar piamente que ele morreu. Sempre que eu lia esta frase tão manjada numa manchete de revista ou jornal era uma indignação só. Não entendia como os críticos de música podiam achar que o rock, logo ele, o rock, havia morrido. 
Um ritmo que nasceu do cruzamento de blues com country, que foi feito por jovens cultos, fãs de poesia e cinema, que não se conformavam em se adaptar a modelos existentes. Ops. Peraí. Jovens, cultos, fãs de poesia e cinema, inconformados? Não adaptados a modelos existentes? Não se conformar? Algo está faltando não acham? Sim. Algo se perdeu no rock e hoje acho sinceramente que ele morreu. 
Não por falta de criatividade, de bandas com aparência rock, mas por falta de necessidade. O mundo de hoje não precisa do rock para mais nada, daí o motivo da sua morte. Morreu a ponto de acharmos que um grupo como Strokes é capaz de sacudir as estruturas do mundo. Impossível.
O maior exemplo disso está no inacreditável disco de um certo Andrew W.K. O cara é jovem, americano, adota a estética rock até o último fio de cabelo, canta músicas sobre festas, putaria, mulheres e porrada, faz um som pesado e barulhento e... não é rock. 
A mesma coisa poderíamos dizer dos cearenses do Surto. São simulacros, típicos dos nossos dias. Garotos classe média fazendo um som e contando com o apoio de gente para gravar um disco. Rock? Onde? O mundo caminha para a eliminação sistemática dos problemas que fazem nascer o inconformismo. 
Relacionamentos amorosos mais fáceis, negros e brancos cada vez mais separados em abismos sociais intransponíveis, ausência quase completa de eventos geradores de informação, falta total de possibilidade de acesso à cultura pop pelo povo (um paradoxo, mas, existente). O mundo se acomodou e disso vem uma desconfortável sensação de que está tudo bem. Pra quê se trancar no quarto com uma guitarra se tudo está bem? Pra quê fazer uma letra sobre a menina que não te dá bola se ela é uma chata que gosta de Ivete Sangalo? O pior de tudo é que o rock não morreu com pompa e circunstância. Foi esquecido aos poucos, deixado de lado. Morto insepulto, como os gregos faziam com aqueles que não deveriam ser lembrados. Sem lápide, epitáfio ou cerimônia fúnebre. Pra nós, fãs de rock, resta o rescaldo do estilo
Talvez as últimas bandas de rock em atividade percam seu gume nos próximos discos. Exemplos? Sim, ainda temos vários artistas desnorteados por aí, insistindo em adotar os parâmetros do rock como sendo os certos. REM, Oasis, Wilco,Radiohead, vá lá, U2, Blur, White Stripes, Strokes, The Hives, Black Rebel Motorcycle Club, a partir daí fica difícil dizer alguém que esteja nos moldes da coisa. Ao contrário do blues e do jazz, o rock se perpetua pela juventude. Claro que senhores como Neil Young, Iggy Pop, Bob Dylan, Paul McCartney, entre uns outros poucos serão sempre bastiões do rock, mas não têm para quem passar a bola nos próximos anos. A geração dos anos 80, liderada talvez por Morrissey, já entregou os pontos há muito tempo. A geração dos anos 90, Cobain à frente, não chegou a se estabelecer e acabou gerando uma insuportável avalanche de bandas simulacro ao longo da década. Coisas como Goo Goo Dolls, Soul Asylum, Live, Hootie And The Blowfish, novos simulacros de rock. Precisa-se de jovens no rock.
Estou ouvindo jazz. Uma espécie de rock do início do século XX. Mais ou menos assim: um bando de músicos negros e brancos resolveu subverter as amarras da música tradicional americana, imersa em academicismos dos séculos anteriores. Essa galera resolveu improvisar. Pra quê ler música em partitura se o som que saía era agradável aos ouvidos? E assim, inconformados com o modelo existente, algumas pessoas jovens fizeram alguma coisa.
O inconformismo, esta mola mestra da insatisfação, propulsor do tédio e da necessidade de extravasar ódios, temores e alegrias tortas está em falta. Poucas pessoas podem ver isso com clareza. O mundo se tornou um grande Quarteirão Com Queijo, cada ingrediente em seu lugar, meio sem gosto e previsível. Terrivelmente previsível. Como um disco de rock hoje. Uma pena.

O Fim Do Mundo Na Fila Do McDonald’s

Alguém já disse que o fim das sociedades contemporâneas se dará através de pequenos detalhes, mostrados discretíssimamente em pequenos indícios. Nada de guerras, mortandade de peixes, chacinas, assaltos e reality shows. Nos pequenos detalhes do dia a dia a coisa vai começar a ruir. 
Impossível não pensar em "Matrix" e suas verdades disfarçadas com linguagem de quadrinhos e visual extra-high tech. Em uma cena chave do filme, Neo (personagem de Keanu Reeves) ouve de Morpheus (vivido por Lawrence Fishbourne) a seguinte revelação: "você sabe que algo está errado com o mundo, você não sabe exatamente o quê, como ou onde, apenas sabe e é esta dúvida que o motiva". 
Uma das mil coisas que acontecem na vida contemporânea que me faz ter certeza de que algo de muito grave está acontecendo na nossa bolota azul e branca é: por que diabos alguém vai ao McDonald’s e, quando vai pedir o sorvete de casquinha, que custa um real, faz a seguinte observação – olha, por favor, é sem casquinha. No copinho mesmo.  Ou ainda, na hora de pedir um dos hamburgers, escolhem o "especial". Neste caso, o "especial" é o sanduíche amputado, sem algum de seus atrativos, como molho, cebola, picles, algo que o torna diferente. É o mesmo que pedir um cheeseburger sem o queijo, ou sem o "burger".
Pausa.
Não vamos questionar aqui as opções de escolha entre lanchonetes. Alguém pode preferir o sorvete do Bob’s ou do Dunkin Donuts. Ok, sem problemas. Outros podem não gostar de sorvete – um outro indício forte de que há algo errado no mundo – mas, tudo bem, não tem problema também. Outros ainda talvez prefiram não tomar um sorvete após o lanche. Mas, por que pedir um sorvete de casquinha sem a casquinha? Se isto fosse uma cena de Matrix, o personagem de Morpheus diria que é uma falha no sistema e que a qualquer momento, o McDonald’s vai estar coalhado de agentes da Matriz.
Desde que eu era criança o grande barato do sorvete de casquinha é a casquinha. O mistério de se comer um biscoito crocante, meio wafer, meio parecido com aqueles tubinhos que são vendidos no sinal, superava a delícia gelada do sorvete. Este fator até fica mais evidente quando o sorvete não apresenta variações de sabor, caso do próprio McDonald’s, que só oferece os sabores baunilha, misto e chocolate. Então, quem não tem os trocados para investir num sundae ou ainda num McMix, é obrigado a recorrer à velha e boa casquinha de outrora. E quando o faz, pede para ser no copinho?
Não há lógica aristotélica ou aplicada que me explique o motivo disso.
E os sanduíches? O que caracteriza um Big Mac e seus similares nacionais, tipo Big Bob é a combinação de molhos e coadjuvantes para a incrementação do pão e a carne. Do contrário, compra-se uma caixa de hamburguers congelados da Sadia ou Perdigão e manda-se bala com um bom pão da padaria da esquina. O charme e o "leitmotiv" de irmos numa lanchonete é, ou, pelo menos deveria ser, o diferencial do que temos em casa para comer. Não adianta ir à lanchonete e pedir algo que se come em casa todo dia. O mesmo poderia dizer de turistas que vão aos Estados Unidos e pedem ao guia da excursão para comer num restaurante brasileiro. Frases como "eu quero o meu arroz com feijão" num templo a céu aberto da gastronomia junk food é o mesmo que ir à Roma e querer ver Dom Paulo Evaristo Arns.
Então vemos gente de todas as idades pedindo Quarteirões com Queijo sem queijo ou Big Macs sem o delicioso molho especial. Eu olho suas fisionomias, penso em seus passados e não encontro resposta. Exemplos similares dessa falta de vontade de ousar, aplicada à gastronomia podem ser vistos em rodízios de massas, nos quais o indivíduo rejeita raviolis, capelettis e rondellis e cai de boca no spaghetti a bolonhesa, que a avó serve todo domingo. Ou ainda naquele sujeito que vai à uma pizzaria requintada, cheia de sabores exóticos e castiga o garçon dizendo que quer "uma de mussarela". Pô, mussarela?
Talvez eu esteja vivendo um momento de "Teoria da Conspiração", ao dar importância a isso tudo, mas sinceramente penso que se o mundo está mal e estes casos citados acima são fortes indicadores disso. Por acaso alguém já viu se o Bin Laden gosta de casquinha? Qual pizza ele prefere? Ou se sua cafta marroquina é com carne de soja? 
Investiguemos. Pode ser tarde demais.

A Pouca Elipse

De uns dias pra cá eu me convenci de uma coisa meio assustadora. Tão assustadora e sutil que resolvi dividi-la com quem ocasionalmente pousa os olhos nesta humilde coluna. Pode parecer doideira, paranóia, exposição prolongada a radiações UV-A e UV-B, seja o que for, mas estou plenamente convencido de que o mundo acabou. 
Sério, o mundo, como o conhecíamos, acabou. Não estou falando apenas de mudanças sócio-econômicas profundas, novas coisas tecnológicas, coisas assim. O mundo acabou. Mesmo. Só que a coisa não é simples assim.  A grande sacanagem no fim do mundo foi o jeito como tudo se deu. Sutilmente. Sem alarde, trombetas de anjos soando, raios caindo, naves espaciais lançando lasers contra cidades. Nada disso. 
O mundo acabou da noite pro dia. Pufff... Acabou. Outra sutileza interessante nisso tudo é que não ficamos boiando no espaço infinito tentando nos agarrar a destroços da Terra. Ficamos aqui, no mesmo lugar, vivendo e agindo com o comportamento moldado para um mundo que não existe mais. Em seu lugar veio o "as coisas como estão" ou  o "hoje em dia".
Sei que isso tudo pode parecer uma mera neurose de um cara de 31 anos, perdido na solidão de uma metrópole do Terceiro Mundo, mas, me diga, ainda falamos em Terceiro Mundo? Não. Agora somos um só mundo. A globalização nos uniu, de um dia pro outro. Talvez a sensação de proximidade máxima entre povos (supostamente, é claro) tenha acabado com o mundo como o conhecíamos. A facilidade (supostamente, é claro) de acesso a tudo, a todos, comunicação de todas as formas, interação, internet, tudo isso mole mole, fácil fácil ao alcance de uma classe média (não existe mais classe média, apenas ricos e pobres) fundiu os circuitos de quem achava fax o máximo. Por falar nisso, cadê o fax?
Então, vivemos numa sociedade de facilidades, que nos exclui sistematicamente enquanto nos inclui. Estranho? Pense bem, você que gosta de rock. É fácil baixar músicas da internet, ouvir seu artista predileto da semana. Só que...você pode comprar um disco importado? Difícil se você for da maior parcela da população de um país como o nosso, no qual não há indústria musical séria, as bandas novas não chegam, as opções são poucas e ruins. Então me diga. É legal só baixar da internet? Se você acha que é, sua relação com a música é a mesma que você tem com um guardanapo de papel descartável. 
Se você acha que música é algo mais profundo, parabéns, ou melhor, que pena. Você está no mundo errado. Não há mais espaço ou tempo para se aprofundar em assuntos como música ou outra forma de arte qualquer. Mas, você dirá: "esse cara é louco, e a internet com seus milhões de sites de cultura, os Cinemarks com suas salas modernas e pipocas gigantes com manteiga e...". O que dizer do sujeito que não tem o fuckin’computador? São a maioria. Estão fora do mundo. Estão fora da realidade, ou melhor, estão na realidade, fora do conforto do "mundo de hoje". 
Como o sujeito vai saber que a MTV tem caráter duvidoso, que existe vida na televisão por assinatura (cada vez menos por mais $$$, outro sinal do fim do mundo como o conhecíamos) e que há cultura por aí? No way. Mas dá pena mesmo dos caras que estão na faixa dos trinta e alguns. A minha faixa. Fomos educados seguindo parâmetros antigos para hoje, como acreditar na família, no Brasil, em Deus, no casamento, estudar para fazer faculdade, conhecer a história do país, do mundo, saber o que é comunismo, capitalismo, socialismo, quem foi Lênin, o que queria dizer URSS. O que estas coisas significam hoje? Porra nenhuma. E, quando o mundo acabou, elas ficaram muuuuuuuuuuito velhas. Arcaicas, fósseis, inúteis mesmo. Os desenhos animados são diferentes, o timming das coisas é muito rápido. 
Lembra dos Strokes? Já foram. Lembra do Hives? Ainda não aconteceu e já passou. Lembra do Megadeth? Acabou. Lembra do U2? Em 1983? Você não era nascido? Mesmo assim lembra? Leu tudo sobre a carreira do grupo? Onde? No site oficial? Tudo bem.
Ficamos presos num lapso de tempo onde os trocadilhos não fazem efeito, as piadas são referenciais, e tudo isso nos fez ficar velhos, de um minuto pro outro. Envelhecemos em achar que Che Guevara era o máximo e que "o mundo ia acabar numa explosão de sal", como dizia Chico Buarque (quem mesmo?). Acabou numa noite mal dormida de sono. E, tontos na manhã seguinte, não percebemos que o tempo passou a correr, o calor aumentou e o bom senso quase sumiu. "Oh admirável mundo novo, que encerra criaturas tais". Shakespeare (Apaixonado, com a Gwyneth Paltrow?) Pode ser.

Sucedâneos Para O Rock

Estive procurando por estes dias tão estranhos alguns sucedâneos para o rock. Como disse o Ira! uma vez, há algum tempo, estou farto de rock’n’roll. Não falo dos mestres absolutos, tipo Beatles, Hendrix, Stones, Who, enfim, os cânones da coisa. A implicância veio do nada, talvez de tanto chamarem Korn e Linkin Park de rock ou de ler Liam Gallagher dizer que é a reencarnação de John Lennon. 
Além disso, amigo leitor, a novidade, esta instituição tão prezada por nós, está definitivamente em processo galopante de extinção. A saída encontrada então foi descobrir coisas novas, absolutamente inauditas, que poderiam saciar a aridez das paradas de sucesso. Após um namorico com o primeiro disco do soulman da Filadelfia, Billy Paul (360º Of Billy Paul) e com a trilha sonora do filme "Waking Life", levado a cabo por uma orquestra de tango texana, deparei-me então, com um sujeito chamado Miles Davis. Pausa.
Eu nunca tive paciência para jazz, ouvi sem contestar, pessoas dizendo que "jazz é sempre igual", "jazz é música de velho", enfim, jazz é chato, anti-jovem e, portanto, vetado. Errado, muito errado. Jazz é muito legal. Talvez a melhor coisa do estilo seja o fato de que ele não tem forma definida. É irritante, entretando ver os jazzistas de plantão estalando seus dedos enquanto vêem o gelo derreter em seus copos de whisky doze anos. Jazz é música de rico. Até pode ser, pois, no Brasil, excetuando uma série da Columbia/Sony e alguns parcos lançamentos amputados de informação, o jazz deve ser importado. Os discos gringos de jazz são um modelo de bons serviços prestados ao ouvinte. As edições ianques do selo Columbia/Legacy são tesouros. Arte original dos discos, faixas extras, remasterização de 20 bits, enfim, novas tintas sobre velhos painéis do passado para as novas gerações. E Miles Davis surgiu deste mundo para o meu mundo cada vez mais silencioso.
Para os interessados, aqui vai um pequeno guia introdutório para a abordagem ao homem. Miles tem pelo menos três grandes momentos criativos exuberantes entre o fim da década de 50 e o início dos anos 70. Nesta vereda, o homem do piston vermelho inventou dois estilos. Isso mesmo, inventou. Miles está para o jazz assim como Hendrix está para o rock. Criatividade, técnica, inventividade, tudo o que o novo disco do Red Hot Chilli Peppers dificilmente trará ou que o novo do Oasis não buscará. Tampouco as bandas inglesas dos selos Jeepster ou Poptones nos surpreenderão desta forma. 
Discos iluminados do sujeito:
"Kind Of Blue" (1959), terceiro trabalho dele para a Columbia, de 1959, é o nascimento documentado da improvisação no jazz. Isso mesmo. Até então os músicos, egressos de big bands, liam suas partituras e interpretavam. Aqui Miles propõe a liberdade. Era o que se chamaria free-bop. 
"Bitches Brew" (1969) é o nascimento do fusion, a mistura de jazz com rock. Lançado um dia depois de "Electric Ladyland", Miles traz um som inédito, anárquico, gordo, percussivo,fazendo torcer os narizes dos fãs mais radicais do jazz, ganhando espaço entre a galera do rock, aproximando assim os dois primos distantes
"On The Corner" (1972) é um subestimado trabalho onde Miles homenageia Sly Stone e James Brown. Aqui o funk de raiz, robusto, com mil linhas de baixo e baterias quebradiças dão o tom para o piston de Miles entrar pelos meandros e atalhos de uma maçaroca sônica poucas vezes ouvida
E o efeito dominó já se fez presença e hoje habitam a estante deste que vos escreve, algumas obras "novas" como "Walking On Space", de Quincy Jones; "Take Five", de Dave Brubeck, "Live At Newport", de Duke Ellington e uma coletânea de Herbie Hancock. Além deles, novas divas do estilo, Norah Jones (ai, ai...) e a chilena Claudia Acuña dão o tom do que pode ser mais interessante de se ouvir.
Se você achou besteira tudo o que está escrito aqui e que o melhor mesmo é cair dentro do Creed, do Staind, do POD, do Korn, do Oasis, do Pearl Jam, do Red Hot, do Foo Fighters e tantas outras bandas, tem o meu total apoio.  Mas, diga lá, há quanto tempo você não ouve nada realmente novo? E não associe a idéia de novo com o tempo. O novo pode estar lá atrás, esquecido, deixado de lado. Miles Davis ainda é novo hoje e, talvez por muito tempo. Cabe a você ouvir o que quiser, seja velho ou novo ou não.

Brian Wilson

Quantas vezes a gente já não se deparou com a expressão "melodias ensolaradas"? Eu mesmo adoro usar este clichê para definir um certo tipo de música que traz uma sensação de felicidade, geralmente um sorriso que brota sem um motivo específico. Talvez apenas para definir uma canção bonita o bastante para se dedicar para a namorada, para lembrar de algum período bom da vida ou para se cantar para uma criança dormir...Não é um clássico, mas um pequeno clássico. A diferença é sutil. E muito grande.
Se este tipo de música existe hoje, os Beach Boys têm participação decisiva nisso. Falar deles é uma tarefa pesada, exige uma matéria grande, abrangente e informativa, digna da importância deles para a chamada música pop. Na verdade, os próprios Beatles admitiram ainda na ativa que a verdadeira disputa deles era com os californianos, não com os Stones ou o Who. O motivo é simples: os Beatles eram artesãos pop, tanto quanto os Beach Boys. Stones e Who, entre outros, são/eram bandas de rock básico, bem feito, perfeito, indispensável, mas básico. Beatles e Beach Boys eram chatos, perfeccionistas e geniais. E os Beach Boys ainda lançam discos até hoje e são capazes de capturar pessoas razoavelmente esclarecidas/prevenidas contra as estratégias do mercado fonográfico. 
É simples. Saiu pela Capitol americana uma nova (a enésima) coletânea de sucessos do grupo. Até aí morreu Neves. Um detalhe do tamanho do mundo faz a coisa ficar diferente. Logo no título já temos a pista de que esta compilação de sucessos, ou melhor, de pequenos clássicos, é diferente de todas as outras: "The Beach Boys Classics – selected by Brian Wilson". Ou seja, o homem, o mito, o líder, o artesão pop por trás de tudo, está escolhendo oficialmente as suas músicas prediletas em mais de cinqüenta discos lançados entre 1962 e 1990 pela banda que ele liderou até 1967. 
Um pequeno toque sobre Brian Wilson: o sujeito é responsável por uma obra-prima da música pop, chamada "Pet Sounds", de 1966. Ali o pop encontrava a perfeição, o status de música "séria", "relevante". E Wilson perdia a sanidade, usuário de drogas pesadas, desenvolvendo uma esquizofrenia que o afastaria da banda, colocando-o como um colaborador. Mas os Beach Boys não são apenas praia ou "Pet Sounds". Discos essenciais como "Surf’s Up", "Sunflower", "Holland", todos feitos depois de "Pet Sounds" e que são os trabalhos mais confessionais dos Beach Boys, livres do esquema carro-praia-biquini, que os prendeu até 1966. 
São vinte músicas, cada uma com comentários de Brian, alguns inéditos, como o que ele faz sobre "The Warmth Of The Sun", de 1963, composta no dia em que John Kennedy morreu. Ou sobre "In My Room", do mesmo ano, balada triste, na qual um Brian recluso e tímido confessa, canta e conta que seu mundo é o seu quarto.
"California Girls" é a sua preferida de todos os tempos; "Don’t Worry Baby" é inspirada em "Be My Baby", das Ronnetes, música preferida de Brian. "Good Vibrations" é definida como uma "sinfonia de bolso" e as músicas de "Pet Sounds" ("God Only Knows" e "Caroline, No") são lembradas como a primeira música pop com "god" no título e como a mais bela música sobre a perda da inocência já feita, respectivamente.
A alegria que caracterizou a imagem dos rapazes da praia só é visível em "I Get Around" e "California Girls". Todas as outras 18 são exemplos raros, introspectivos e lindos da musicalidade da banda. "Marcella" é a tentativa beachboyana de emular os Stones e uma espécie de r&b mais negro; "Surf’s Up" é uma beleza só, vocais e instrumentos, com letra de Van Dyke Parks e música de Brian, além das tristonhas "Time To Get Alone", "This Whole World" e, principalmente "Til I Die".
E dizer que Brian é o único responsável por tudo isso é injusto. Lá estão os vocais maravilhosos de Mike Love, a harmonia perfeita entre os manos Dennis e Carl Wilson (Carl, para muitos, tão genial quanto o irmão), a discrição de Al Jardine  e a eminência parda de Van Dyke Parks, colaborador de "Smile", o disco que Brian compôs para ser uma "sinfonia adolescente para Deus". O disco nunca vendeu, foi embargado pela gravadora, causou o destrambelhamento definitivo dele e seu afastamento. Van ficou como compositor da banda junto com os Wilson ao longo da década de 70.  Essa oportunidade de ouvir este período desconhecido de uma banda tão importante para a história é rara e deve ser aproveitada. E o aperitivo pode ser o lançamento nacional de "Pet Sounds Live", gravado por Brian Wilson e sua banda atual ao vivo, 36 anos depois de compô-lo. Se você é fã de rock, mas guarda aqueles pequenos sorrisos, trazidos pelos pequenos clássicos do século XX, tire o escorpião do bolso. Vale a pena. 
 
E dizer que Brian é o único responsável por tudo isso é injusto. Lá estão os vocais maravilhosos de Mike Love, a harmonia perfeita entre os manos Dennis e Carl Wilson (Carl, para muitos, tão genial quanto o irmão), a discrição de Al Jardine  e a eminência parda de Van Dyke Parks, colaborador de "Smile", o disco que Brian compôs para ser uma "sinfonia adolescente para Deus". O disco nunca vendeu, foi embargado pela gravadora, causou o destrambelhamento definitivo dele e seu afastamento. Van ficou como compositor da banda junto com os Wilson ao longo da década de 70.  Essa oportunidade de ouvir este período desconhecido de uma banda tão importante para a história é rara e deve ser aproveitada. E o aperitivo pode ser o lançamento nacional de "Pet Sounds Live", gravado por Brian Wilson e sua banda atual ao vivo, 36 anos depois de compô-lo. Se você é fã de rock, mas guarda aqueles pequenos sorrisos, trazidos pelos pequenos clássicos do século XX, tire o escorpião do bolso. Vale a pena. 

Pequeno Comentário A Respeito Dos Indies

Um dia eu aprendi na aula de Geografia que a divisão de rendas nos países do Terceiro Mundo era injusta. O professor Fernando, do saudoso Colégio Santo Agostinho disse um dia as palavras poderosas: "nos países pobres, os ricos são muito mais ricos que nos países ricos". E são essas frases, acumuladas e arquivadas no nosso inconsciente, que nos norteiam pela vida afora. Outro dia pude perceber que ela pode ser adaptada da seguinte forma: "nos países pobres de cultura, os cultos são mais cultos que nos países ricos culturalmente". Verdade. Quem tem acesso à cultura por aqui é mais "culto" que a média de um país como os Estados Unidos, por exemplo. 
Adaptando isso à cultura pop e, mais precisamente à música, temos o surgimento de uma raça dura de engolir: os indies. Claro, os indies existem em todo mundo, basta você ser contrário a uma maioria e, no caso específico da música, gravar um disco independentemente, que você vai ser indie, ou independente, que é o termo completo e correto. Aqui no Brasil, o indie é um sujeito interessante. É uma pessoa culta sim, de classe média alta quase sempre, com acesso aos  canais condutores de "cultura", ou seja, Internet, TV a cabo, publicações internacionais, o que significa esclarecimento sobre as coisas que rolam no mundo. Só que o indie é um cara sempre muito chato. Chato e pretensioso. Pretensioso e contraditório. 
Neste ofício jornalístico que mantenho na Rock Press em seus oito anos de existência gloriosa, pude analisar algumas pérolas do ideário indie. 
E, por não ser indie, posso compreendê-los de uma maneira isenta a ponto de fazer algumas análises. Veja, leitor, nada contra os indies, mas uma contradição chave me faz pensar: se você é indie e gosta de uma banda indie boa como Thee Butchers Orchestra, por exemplo, nada errado com você nem com a banda. Certo. Se amanhã os Butchers recebem uma proposta de contrato com a Sony para gravar um disco e aceitam, a pulga vai para trás da orelha indie. "Os caras se venderam", ou "agora o trabalho deles vai se diluir". Ninguém pensa no fato de que para a banda, assinar com uma gravadora major significa, finalmente, $$$$$$$$ depois de um bom tempo de batalha no underground e, conseqüentemente, maior capacidade de atingir novos ouvintes no  Brasil. E este é exatamente o segundo ponto chave nisso tudo. Os indies só gostam das bandas enquanto elas não fazem sucesso para uma galera maior. 
Veja o caso do Belle & Sebastian. Quando eles surgiram entre os indies, através do segundo disco "If You’re Feeling Sinister", eram a maior banda surgida desde a Última Ceia. Bastou a Trama lançar toda a discografia deles por aqui incluindo seus singles, que o B&S virou motivo de piada entre os indies brazucas. Coisa mais injusta. O sucesso dos caras lá fora só faz aumentar e eles cada vez se consolidam mais nos Estados Unidos. 
Outro exemplo: Radiohead. A coisa mais próxima da perfeição surgida em termos de conceito, dignidade e potencial artístico nos últimos tempos. Já ouvi indie dizendo que o Radiohead, "em sua intenção de não manter um conceito era uma banda  de rock às avessas, pois seu conceito era rock de tão diferente dos padrões do rock". Dá pra entender? E a música? Fica fora da discussão  de tão complexa que ela se torna. 
É uma gente que ignora o preceito maior de que o "acessório acompanha o principal", ou seja, em termos rock, "as bandas indies acompanham as bandas matrizes". Exemplifico: o Beachwood Sparks acompanha o Byrds, o Apples In Stereo acompanha os Beatles, o Teenage Fanclub acompanha o Big Star e por aí vai. Assim como o Thee Butchers Orchestra acompanha o Jon Spencer Blues Explosion, sem crises, sem dores na consciência. Talvez falte um pouco de humildade, talvez um pouco de originalidade. Talvez um pouco de vergonha. Ou talvez haja coisas em excesso "demais".

Primeiro Post

Não sei o que escrever. Sempre fui contra blogs, no entanto, aqui estou eu, caindo do cavalo virtual e me rendendo - tarde demais - a essa praga. Confesso, no entanto, que deve ser legal escrever mil coisas por aqui e várias pessoas lerem. Como todos podem ver, o blog é simples, branco total radiante, praticamente texto. Vai ficar meio chato depois de algum tempo, mas, paciência. Com o tempo eu vou melhorando minhas habilidades blogueiras. CEL - Carlos Eduardo Lima, que fique bem claro. Alguns podem me conhecer da Rock Press, revista na qual escrevo desde 1996. Outros podem ter lido alguma coisa minha no finado Scream & Yell - do amigo Marcelo Costa. Uns terceiros podem ler minhas colaborações na Zero e no site Bacana, mas o que importa é isso aqui vai ficar apenas entre nós. Sem pitacos alheios restritivos de qualquer espécie. Apenas uma consideração climática - a Tijuca, meu atual endereço, é um bairro que é conhecido pelo calor. Neste momento estou experimendo um frio intenso - coisa de inverno, claro - mas que parece sincera. É frio mesmo. A trilha sonora neste momento é um cavalo de batalha dos Isley Brothers, banda de soul dos anos 60/70, que oficialmente nunca parou. The Highways of My Life. As Auto-Estradas da Minha Vida. Claro que o português estraga algumas coisas que só a língua de William Shakespeare mostra. Mas, o que corre pelas rodovias da sua vida? Música linda, do início dos anos 70, se não me engano, 1972. Linda. Enfim, volto num post futuro em qualquer tempo. God have mercy on my soul!